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29/03/2014

Ninguém está bem com o que tem

“Ninguém está bem com o que tem, é sempre o que vem que nos irá valer” – Deolinda

Acho que as pessoas se habituaram a adiar a felicidade. Nunca estamos bem hoje, esperamos sempre o que imaginamos que virá amanhã. Porque então, oh, então sim! Teremos mais idade, teremos mais dinheiro, teremos mais amigos, teremos um emprego, teremos um carro, teremos uma família, teremos mais disto, menos daquilo, o certo de tudo – do errado, nada.
Por mais que acredite que há situações limite em que é impossível sentir-se feliz de forma estável, o facto é que esse tipo de situações não é a regra geral que comanda a vida do cidadão comum. O que comanda a vida do cidadão comum é o próprio cidadão comum. Sim, claro que o contexto importa, mas se não podemos alterar esse mesmo contexto, de que serve vivermos infelizes até que ele mude? Temos que nos adaptar e, sobretudo, aceitar aquilo que não podemos mudar. É algo paradoxal, mas só assim teremos força para realmente promover mudanças que estejam ao nosso alcance e que, tantas vezes, desprezamos. De facto, levanta-se a questão: como pode alguém ser feliz se despreza a sua própria força renovadora? A sua própria influência? O seu poder na própria vida?
Outro problema é que, se adiamos a felicidade para o momento ideal, vamos encontrar apenas desilusão. O momento ideal não existe – e esta é a principal verdade que distingue a fantasia da realidade. Sim, na nossa ideia do futuro, tudo é perfeito e está em ordem. Mas ele nunca acontece assim – que chatice! A vida, mais que muitas vezes, altera os nossos planos e dá-nos cartas diferentes das que esperavamos. Se estivermos presos ao retrato que fizemos do futuro na nossa imaginação – e à felicidade que daí esperavamos retirar – não teremos a flexibilidade de repensar a nossa jogada com as cartas que, de facto, nos foram dadas. E se perdermos a nossa capacidade de nos adaptarmos ao contexto, perdemos uma das principais vantagens que nos distingue enquanto seres humanos.

O que temos que encarar  é que, se não somos felizes agora, não será aquele detalhe que imaginamos vir a ter no futuro que fará a diferença. Temos que ser nós próprios a fazer a diferença. A alterar a nossa visão do mundo, a nossa forma de nos relacionarmos com ele. Porque a única coisa sobre a qual realmente temos a influência suficiente para desenvolver grandes mudanças é em nós próprios – mas, acreditem em mim, isso chega.

25/04/2012

A Revolução dos Cravos - 38 anos


“(…) Muitas partes do mundo atravessam, hoje, um momento de particular dificuldade económica, cuja origem tantos concordam em situar numa profunda crise de tipo espiritual e moral, que deixou o homem sem valores e desprotegido contra a ganância e o egoísmo de certos poderes que não têm em conta o bem autêntico das pessoas e das famílias. Não é possível continuar por mais tempo na mesma direção cultural e moral, que causou esta situação dolorosa que muitos sentem. Em vez disso, o verdadeiro progresso necessita duma ética que coloque no centro a pessoa humana e tenha em conta as suas exigências mais autênticas, de modo especial a sua dimensão espiritual e religiosa. Por isso, vai ganhando cada vez mais espaço, no coração e na mente de muitas pessoas, a certeza de que a regeneração das sociedades e do mundo exige homens retos e de firmes convicções morais e altos valores de fundo que não sejam manipuláveis por interesses limitados mas correspondam à natureza imutável e transcendente do ser humano.”
Papa Bento XVI


Português,

Na Assembleia, os políticos em quem talvez tenhas perdido a esperança, dirigindo-se a todos os outros senhores que os acompanham nos ilustres assentos, comemoram a data que hoje te dá um dia de descanso. Falam nos canais públicos, mas esquecem-se de se dirigir a ti. Falam sobre ti, por tua causa, em teu nome, mas não se dirigem a ti. Preferem bater palmas aos títulos do que às ideias e falam de ti como uma espécie protegida. Mas estas palavras, Senhor deputado ou outro qualquer ilustre, também são para ti. Não como titular de um assento, mas como Português. Como criador, lutador e transmissor da Revolução de Abril, elas são para ti.

Talvez o 25 de Abril sirva hoje apenas para o descanso, mas há 38 anos foi uma prova de coragem, de força, de um desejo partilhado por todo um povo. Fomos um país há 38 anos, Português. Fomos um país porque caminhamos todos juntos na mesma direcção. Estávamos unidos, Português! E essa união fez-se ouvir bem clara no coro das nossas vozes. Não foram precisas espingardas, nem tiros, nem lutas, nem desrespeitos, nem violência. Orgulha-te, Português! Quantos países conquistam a liberdade pela união? Quantas nações usam a paz para pôr um fim à guerra? Quantos povos saem à rua todos juntos, sendo a própria imagem da liberdade que tanto almejam?

Tu esqueceste-te, Português. Esqueceste-te que a tua nação é, antes de mais, um povo. O teu povo, que não se prende ao chão deste rectângulo a que chamamos Portugal, mas que hoje se distribui um pouco por todo o mundo. Estas palavras também são tuas, Português que, longe ou perto, não pisas solo português. Estas palavras não são uma homenagem à tua emigração, mas são uma tentativa de compreensão e explicação da mesma. Porquê que tiveste de ir, Português? Foi porque quiseste? Foi porque querias uma projecção que aqui não conseguias? Ou foi porque não tiveste alternativa, porque a tua própria nação se esqueceu de ti? E se eles se esqueceram, tu desististe, Português. O teu Primeiro-ministro pediu-te para ir e tu foste sem pedir mais, Português! Não digo que estivesses errado. Talvez tenha até de seguir as tuas pisadas um dia. Escolham-se as batalhas a travar, certo?

Há 38 anos, uma batalha só ganhou a melhor a muitas guerras. Revolucionou-se o país e, por mais falhas que se possam apontar, a verdade é que 25 de Abril foi um dia de mudança. Claro que esse dia só existiu porque as mentalidades já estavam mudadas, já estavam maduras, já iam mais longe do que os limites que o próprio Estado impunha. Isto porque a mente humana é algo extraordinário ao qual não se colocam barreiras. Mesmo no mais obscuro dos tempos, mesmo na prisão que é um regime autoritário, mesmo aí a razão humana consegue ir mais longe e procurar outros horizontes!

E hoje, Português? Onde estão os teus horizontes? Não culpes o teu governo, não culpes o teu Estado, não culpes o teu povo. Os teus horizontes, és tu quem os traça dentro da tua própria cabeça. E que não se queira revolucionar o país sem primeiro se revolucionar as mentalidades, porque aí teremos em mãos uma revolução fútil e desnecessária, que acabará por não significar nada. Uma revolução sem causa, sem futuro e sem ‘R’ maiúsculo.

O que o teu país precisa, Português, o que todos nós precisamos, é, antes de mais, de uma revolução humana. Uma revolução que comece por alargar os horizontes mentais de cada um e que se vá estendendo calmamente, ao ritmo que apraz a uma revolução desta dimensão.

Precisamos de nos mudar a nós mesmos, Português! Precisamos de prestar mais atenção ao próximo que ao PIB, que à crise, que ao défice e que à dívida. Precisamos de prestar mais atenção ao próximo que à indignação contra os que governam, que às inúteis lutas que travamos entre um povo – que devia caminhar para um mesmo objectivo e não discutir todos os dias em relação à forma de chegar e acabar por nem sequer sair do sítio. Precisamos, eu e tu, de prestar mais atenção ao próximo que às nossas próprias contas – sim, do que às nossas próprias contas! Não te preocupes, Português, não hás de te afundar por dar um pouco de ti. Não vais acabar pobre e sem tecto. Mas se preferires, ancora-te então ao dinheiro e logo veremos o que acontece… Já não presenciaste experiências que chegassem, Português? Olha à tua volta! Em plena crise, quando todos sabemos que quem mais sofre são os de baixo por experiência, os teus dirigentes continuam a fixar-se no dinheiro, nos números, no agora!... e esquecem-se que nas ruas há um povo que precisa de comer, de se vestir e de estudar! E amanhã, quando o país precisar de professores, de historiadores, de advogados… Enfim, de verdadeiros profissionais, já eles terão sido acolhidos noutra pátria.

Acorda, Português, que o sol já vai alto! É assim que pensas progredir? Com uma educação elitista? Com uma vida social desenhada para quem pode e para quem tem? Muda de pensamento, Português! Só te enganam porque deixas! Participa, predispõe-te, abre-te à vida política do teu país! Não deixes o trabalho para os políticos – já sabes do que eles são capazes lá sozinhos. Dispõem-te a governar com eles. Este país é teu! E tu, e tu, e tu, e tu, e todos nós é que o temos que guiar. Não são os ministros, não são os ilustres, não são os sentados! São os que se levantam cedo todos os dias para prestar serviço à comunidade. O teu trabalho é isso! Não é apenas um levantar pelo dinheiro – ou pelo menos, que assim não o seja –, é um serviço que prestas aos teus conterrâneos e, tantas vezes, até a irmãos de outros países.
Todos nós contamos, Português! Até tu, que não pisas hoje o mesmo solo que eu.

Este país é teu, para ti, por ti. Esta pátria foi feita para ti tanto quanto para mim e tanto quanto para o Senhor Presidente da República. O hino é nosso, o solo é nosso, a bandeira é nossa. E que a nação seja nossa também. Que nos coloquemos a nós próprios em comunidade, numa vida integrada com o outro, aberta para o mundo. Não te feches, Português! Abre os olhos, os ouvidos e as mãos e guarda a boca para quando tiveres algo de concreto a dizer. Não coloques o teu próprio destino, a tua própria felicidade, a tua própria dignidade nas mãos dos outros. Educa-te, actualiza-te, cresce e faz crescer. Faz crescer este país, que precisa tanto de ti como de qualquer outro.

Vamos ser um país de novo?


Um cravo a todos,
De uma Portuguesa

24/09/2010

Água benta

  Água benta: o que é? Para alguns, talvez represente um ritual; uma tradição; um acto executado, sim, mas não inteiramente compreendido. Por outro lado, também há aqueles que a vêem quase como um arcaísmo, algo em que não se pensa, seja por discordância, seja por mero desinteresse.
  Ainda existe, contudo, a versão mais "tradicional", mantida e defendida por aqueles para quem Deus e a Natureza se entrelaçam num: água benta é, afinal, purificação. Talvez algo mais, mas nunca nada menos do que virtude, pureza, integridade.
  Meditando sobre estas palavras, que, ligeiras, carregam muito mais do que consoantes, vogais e sílabas, encontro-as levemente bordadas na alma desse líquido transparente - benzido, ou não - que nos escorre pelos dedos, sem, no entanto, o vermos, prova viva duma fragilidade aparente, duma força esmagadora que, por vezes, se dissimula num silêncio cómodo.
  Água benta, água bendita, água abençoada - adjectivos que emprego não como distinção entre várias qualidades de água, mas sim como uma verdade imutável, que exerce toda a sua veracidade sobre toda e qualquer gota, solitária na sua existência indivisível, forte na sua pequena vulnerabilidade irreal.
  Afinal, seja a água que limpa a nódoa, que arrefece o corpo quente, ou que refresca a boca seca, toda ela é benta. Qual de nós não chega a casa, depois de uma boa corrida, toma imediatamente um copo de água e se sente verdadeiramente grato por esta existir? Qual de nós, sentindo-se nervoso ou preocupado, não molha os pés na água salgada e se sente embalado pelo ruge-ruge das ondas? Qual de nós consegue conceber um futuro sem esta fonte de tanta vida?
  E, mesmo assim, quantos de nós a desperdiçam superficialmente, todos os dias?

02/09/2010

Perfeição Utópica

  Recordo vivamente o meu professor de Educação Visual sentado à secretária, a acrescentar cores, linhas e sombras aos nossos trabalhos supostamente terminados. Entretanto, dizia: “para um artista, a obra nunca está acabada”.


  Na minha opinião, ele não podia estar mais certo. Seja qual for o artista e seja qual for a sua obra, há sempre algo a acrescentar, alterar, refazer… essencialmente, a aperfeiçoar. E, na verdade, não é o Homem um artista, cujo trabalho vital reside não na moda, nem na tecnologia, nem tão pouco na economia ou na política, mas sim em si mesmo?

  A nossa vida é um constante ajustamento e, acima de tudo, amadurecimento de ideias, sentimentos, comportamentos e princípios. Apesar de não ser sempre no sentido mais correcto, o nosso crescimento é permanente e inevitavelmente contínuo. É um trabalho perpétuo. Assim, com cada nova experiência, compreendemos e, mais, sentimos algo anteriormente inatingível. De tal forma que, quando observamos as nossas acções passadas, encontramos sempre actos que gostaríamos de mudar. Contudo, foram esses erros, por vezes, embaraçosos, juntamente com outras experiências mais felizes, que nos fizeram a pessoa que hoje somos e, se não nos podemos orgulhar de nós próprios, de que nos podemos orgulhar?

  Então, se a nossa vida é um perpétuo aperfeiçoamento, qual é o objectivo? Sabemos bem que perfeição não rima com Homem. Poderemos nós estar a desperdiçar o nosso tempo a correr em direcção a uma meta inalcançável? A uma utopia?

  Penso que não. Não chamo a esta perfeição, mas dou-lhe sim o nome de Deus. Para mim, Ele é o único portador de uma perfeição quente, luminosa e feliz, ao contrário daquela que os homens, por vezes, procuram e idealizam. Assim, diria que o objectivo é “procurar as coisas do Alto” (Cl 3, 1-4), agir por Deus e em Deus, não para nos salvarmos a nós próprios, mas sim para construirmos o Amor e melhorarmos o mundo.



Felizes os que se arrependem perante o Senhor! “Felizes os que cumprem os seus preceitos e O procuram com todo o coração”! (Sl 119, 2)

01/07/2010

Festejar pelo prazer de festejar

Chegou o S. Pedro. Os bairros vestem-se com as respectivas cores e as ruas, decoradas a preceito, enchem-se de fogueiras, de garagens abertas ao povo e de pessoas. Sobretudo de pessoas.

Chegou o S. Pedro. Só as palavras “S. Pedro”, para nós, poveiros, têm um significado inexprimível, demasiado abrangente para qualquer dicionário. Para os estudantes, muitas vezes trazem um travo a Verão e liberdade, pois anda de mãos dadas com o fim das aulas. Para os mais bairristas, o mais imediato são as rusgas e a competição (quase) saudável. Para uns, a procissão é o evento mais marcante. Para outros, o que importa é a festa pela noite dentro.

Mas todos nós concordamos em como a festa poveira apresenta uma característica indispensável: o convívio. Isto, porque S. Pedro não é S. Pedro sem um bom passeio pelas ruas da nossa Póvoa, contando com umas quantas paragens aqui e acolá, para partilhar uma sardinha bem assada e uma malga quente de caldo verde. Isto, porque S. Pedro não é S. Pedro sem um abraço dado a um velho amigo e um sorriso oferecido a um estranho. Isto, porque S. Pedro não é S. Pedro sem a humilde gente poveira unida e, assim, reforçada, pronta a exclamar uma saudação aos conterrâneos e um “bem-vindo seja!” aos que vêm de fora.

De certa forma, o S. Pedro é um segredo poveiro. Não é possível entendê-lo sem experimentá-lo, aqui, com os nossos conterrâneos. E, assim que o vivemos, não o conseguimos transmitir, porque não encontramos palavras. Porque, o que quer que dissermos, ficará aquém do que sabemos bem ser o S. Pedro. É daquelas experiências simples que não se podem verbalizar, que não se podem trocar… Que fazem tudo o resto valer a pena.

O S. Pedro é isto: toda a Póvoa achegada para festejar. Festejar o quê? Nem nós sabemos. Talvez o nosso padroeiro, talvez as nossas tricanas, talvez a nossa terra… Não importa. É um festejar sem motivo, sem razão, sem objectivo. É um festejar pelo prazer de festejar. É ser simples e acolhedor. É ser feliz. É ser poveiro.

Afinal, sempre é bom viver aqui – quando é S. Pedro.
:)

Renascer

Mais do que no Mundo, penso na terra; mais do que na Humanidade, atento na pessoa.


Em todas e cada uma vejo Amor. Sinto-o e quero eternizá-lo, guardá-lo perpetuamente. Quero construí-lo, gesto por gesto, para que não possa ser levado pelos ventos, pelas ondas, pelas tempestades. Para que todos – e cada um – possamos olhar para ele, quando nos apetecer, e sorrir. E senti-lo a nascer em nós.

Quero o Teu Reino na Terra. Quero o Teu Reino em mim.

Que outra palavra senão:

                                                         conversão

                                                                                       ?

03/03/2010

Falhas

Se corresses pelas rochas, saltarias as falhas, como eu?

Mesmo que cada salto te magoasse o pé, ou a cabeça, ou o coração?
Mesmo que o risco de te perderes na falha se tornasse mais pesado ao longo do percurso?
Mesmo que a falha nunca desaparecesse totalmente do teu coração?

Saltarias as falhas, de qualquer das formas, ou ignorá-las-ias, só para te voltares a deparar com elas mais tarde?
Ou podias ainda regressar, esquecer aquela rocha, partir em busca de uma mais perfeita, mais fácil de percorrer.

Mas não saberias, como eu sei, que o maior salto é o mais feliz.
Que a maior falha pode tanto magoar-te, como trazer-te a maior das alegrias.

(Acontece o mesmo com as pessoas, as suas falhas, e o Amor)

27/02/10

A Casa Assombrada

Rosa e Rui mergulhavam profundamente nas antigas memórias da avó, todas concentradas no sótão. Era dia de Natal e, tanto as suas mães, como o tio deles e ambos os seus filhos, iriam passar e celebrar aquela sobejamente importante tradição com a avó Júlia. O seu marido, o avô deles, tinha morrido há cinco anos e, claro, não podiam deixar a avó sozinha no Natal. Seria extremamente incorrecto e rude.


- Ouve isto, Rosa: “Para matar vampiros, use estacas de madeira, enquanto, para lobisomens, são preferíveis balas de prata. Já os fantasmas, só morrem com sal grosso.”. Não sabia que a avó gostava destas coisas. Bem, acho que ela sempre foi um pouco excêntrica.

- Esse livro não é da avó. Foi o avô que o comprou, apenas por divertimento. Ele queria ver a cara da avó, quando lhe mostrasse o livro. – Ao ver a cara curiosa de Rui, Rosa acrescentou – A avó contou-me essa história o mês passado, no Dia dos Mortos. Queria que eu conhecesse “o lado engraçado e, às vezes, incrivelmente inconveniente” do avô, tal como ela o pôs.

Mas Rui já tinha dirigido a sua atenção para uma caixa cheia de conchas, búzios e afins, rotulada com “1993”. Aparentemente, o conto que estava por detrás daquela caixa era bastante apelativo, pelo menos para Rui. Rosa já tinha encontrado outros objectos interessantes. Percorria, com o olhar, a estante de livros, como que à procura de um específico.

- Rui – disse ela sorrindo – descobri o livro de contos do avô. – Porém, o seu olhar voltou atrás e deteve-se num outro livro. Este tinha uma lombada de cor marfim e letras gravadas em dourado, que soletravam: “A casa assombrada”. Rosa achou aquele livro atraente e pensou que Rui, sempre disposto ao terror, iria adorar. Pegou nele com cuidado e o rapaz não tardou a descobrir que aquele não era o livro esperado.

- Que livro é esse? Parece muito estranho. Acho que não devíamos abri-lo.

- Porquê? Vá lá. Vê, chama-se “A casa assombrada”. Tu sempre adoraste estas coisas.

- Não sei, não gosto do seu aspecto e tenho um mau pressentimento.

- Podíamos só dar uma vista de olhos, e, se não gostarmos, fechamo-lo e pomo-lo de lado.

- Pronto, está bem. Mas, fica sabendo, só o faço porque sou demasiado curioso.

Rosa abriu o livro e, antes que pudesse agir, o livro sugou-os, com tal força, que foi impossível eles resistirem.

- Rosa! Onde estás?

- Rui! Ajuda-me!

Foram pousados num soalho que rangeu, para seu grande susto. Ambos caíram com um estrondo ensurdecedor e bastante longe um do outro. Rosa levantou-se depressa e foi ao encontro de Rui, que também já se tinha levantado.

- Onde estamos? – perguntou Rosa, assustada.

- Não sei. Vês? Tudo por causa da tua ideia maluca! “Vá lá! Tu sempre adoraste estas coisas.” – replicou Rui, com uma voz muito acusadora.

- Desculpa! Nunca pensei que isto pudesse acontecer. – desculpou-se a rapariga, à beira das lágrimas.

- Perdoa-me também. Não foi culpa tua. E, por favor, não chores! Precisamos de nos manter alerta, temos de descobrir onde estamos.

- Não é óbvio? – explicou Rosa, subitamente recomposta – Estamos na casa assombrada do livro.

- Ah! Agora já sabes tudo outra vez, não é? – ripostou o rapaz, irritado – Mas, desta vez, és capaz de ter razão.

Repentinamente, começaram a ouvir barulho de passos e apareceu-lhes uma figura peluda, castanha e volumosa à frente.

- Oh! Sejam bem-vindos à Casa Assombrada! Mansão, melhor dizendo! Eu sou o Duque do Susto. Em que posso ajudar carne fresquinha e… quero dizer, jovens, como vocês?

- Nós queríamos saber – respondeu Rui, chegando-se à frente, enquanto Rosa tremia compulsivamente – como podemos sair desta mansão, e voltarmos ao sótão da nossa avó.

- Oh! Mas isso é deveras fácil. Têm de sair pela porta principal, claro. – respondeu o Duque, com um tom de superioridade – Se assim desejarem, eu acompanhar-vos-ei.

Os primos aceitaram e o recém-chegado levou-os, então, através de escadarias e mais escadarias. Por fim, Rosa falou, exausta:

- Desculpe, falta muito para chegarmos à porta principal?

- Bem, eu avisei-vos que isto era uma mansão. Demoramos, sempre, imenso tempo para…

- “Demoramos”? Quer dizer que mais pessoas habitam aqui? – cortou Rui, assustado com a ideia, pois, no caminho todo, não tinham visto, sequer, um rato.

- Com certeza! O menino não pensava que eu, Duque do Susto, morava nesta mansão, totalmente sozinho, pois não? O que sucede é que os outros monstros estão no salão principal, a jantar. Vocês apanharam-me numa ida à casa-de-banho.

- Que tipo de “outros monstros” vivem aqui? – interrogou Rosa, aterrorizada com essa possibilidade.

- Moram aqui todo o tipo de almas perdidas imagináveis. Somos apenas simples criaturas rejeitadas pelo resto do mundo. – acrescentou o lobisomem, vendo o olhar dos primos - Podemos ser horríveis, mas penso que ainda possuímos, pelo menos a maioria, um coração.

Os dois primos experimentaram, no exacto momento em que aquelas palavras saíam da boca do Duque, um sentimento de compaixão e pena. Como é que poderiam ter pensado mal, e chegado, mesmo, a sentir nojo daquelas criaturas? Como é que poderiam tê-las julgado, sem tê-las, sequer, conhecido?

- Ah! Tinha-me esquecido que, no caminho para a porta, passaríamos pelo salão. Querem jantar?

- Nós gostaríamos muito, mas as nossas mães devem estar à nossa espera. – desculpavam-se os dois, em coro.

- As vossas mães nem notaram a vossa falta. O tempo, aqui na mansão, não passa. É um privilégio que nós não possuímos, tal como tantos outros. – reparando no olhar desacreditado que os primos trocavam, o Duque sugeriu – Olhem para os vossos relógios, se não acreditam.

Ambos os adolescentes, olhando para os relógios, constataram que o ponteiro dos segundos, de facto, não se mexia. Rosa já havia reparado naquele acontecimento antes, mas tinha achado que o relógio se tinha estragado, com a queda.

- Então, decidem-se a ficar, ou preferem seguir? – questionou-os o lobisomem, parando subitamente e fazendo com que, por pouco mais de um centímetro, Rosa e Rui não chocassem com uma parede.

Tinham de tomar uma decisão, porém, ambas as opções tinham argumentos fiáveis. Poderiam escolher ir-se embora, desapontando o Duque, mas evitando as outras criaturas, ou poderiam ficar, enfrentá-las e, quem sabe, comer ratos ao jantar.

- Teríamos todo o prazer em ficar – apressou-se Rosa a responder, num tom decidido.

Entraram no salão, aparentemente calmos e prontos para o que iriam ver. Todavia, a surpresa foi algo agradável. É verdade que aquelas criaturas eram horríveis e facilmente desprezáveis, porém, comportavam-se civilizadamente, como se fossem pessoas. Comportavam-se, até, melhor do que os primos de Rosa e Rui. E o seu jantar era perfeitamente saudável, equilibrado e, pela pequena parte que os primos experimentaram, saboroso. Nesse momento, eles aperceberam-se que nunca se devem julgar as pessoas pela sua aparência, ou neste caso, as criaturas, porque no fundo, todos têm sentimentos.

Durante a incrivelmente enriquecedora refeição, o Duque contou-lhes que costumava comer pessoas, mas, na mansão, tinha entrado numa espécie de reabilitação, e, desde que ali pusera os pés, só comia legumes, fruta e verduras.

- Nada de carne! Sabem, ainda estou no primeiro ano do programa. Quero, também, pedir-vos desculpas pelo meu áspero comentário, quando aqui chegaram. Foi um lapso momentâneo, mas vai acrescentar-me três meses ao programa.

No fim do jantar, Rosa e Rui foram acompanhados por uma série de criaturas, que haviam conhecido durante a refeição, dando, assim, um merecido descanso ao Duque do Susto. Quando, finalmente, chegaram à porta principal, exaustos, mas satisfeitos com a lição, custou-lhes imenso despedir-se dos novos amigos. Por isso, decidiram criar uma nova tradição: todos os anos, no dia de Natal, seriam novamente sugados para o livro e passariam o tempo que quisessem na mansão.

Assim que se encontraram novamente, no sótão da avó, notaram que os relógios tinham começado a trabalhar e que não se sentiam nada cheios. Na verdade as suas barrigas contorciam-se de fome. Mas, o mais impressionante de tudo, o livro tinha desaparecido e parecia que tinham acabado de acordar de um sono de dez horas! Nessa altura, os primos esqueceram a fome e interrogaram-se mutuamente. Ambos recordavam os mesmos eventos e, em especial a lição que tinham aprendido. Mas teria aquilo sido um sonho conjunto ou teria acontecido realmente? Aí, ambas as mães chamaram-nos com tal persistência, que Rosa e Rui não tiveram outro remédio senão descer. Acordaram que jamais contariam o sucedido a alguém. Desceram, ambos esfomeados, e puseram a cara mais normal que conseguiram. Desde então, partilham um segredo que todos desconhecem e criaram um laço muito especial.

 
30/11/09

13/02/2010

Os teus cabelos são uma só nuvem. Uma nuvem onde os sonhos se formam. Nela me deito, espero, adormeço. E no sonho que tenho em ti encontro a minha verdade. O meu sonho é a verdade.


O teu sorriso é o Céu. À primeira vista, não desvendo a sua insondável grandeza. Até que, brilhando de esperança, surgem timidamente as estrelas e, nem na escuridão mais densa, elas deixam de reluzir. E estrelado fica o meu sonho.

As tuas faces rosadas são dois botões de flor, pequenos e simples. São a pureza, são a fragilidade. São a beleza da imperfeição e da fraqueza da nossa espécie. São o que nos torna humanos.

E teus olhos! ... Existe, neste Universo, algo que tenha comparação possível com os teus olhos, para além dele próprio? Essas doces íris, que contêm o recanto mais sombrio – onde as Trevas de nada valem contra a Luz em ti acesa – e a majestosa planície – onde o Sol se espreguiça, inocente, aquecendo e iluminando todas as almas.

Contudo, como poderia eu sonhar com qualquer aspecto do teu semblante, sem antes reconhecer o teu bondoso coração? O teu apoio, o teu centro de gravidade, a maior dádiva que podias oferecer ao mundo. A verdade do meu sonho.

22/11/2009

"Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Lavoisier

   Num desses anos repletos de hormonas e dramas, aprendemos a interpretar esta lei de uma forma quase automática. É explicada sucintamente pelo professor, de um ponto de vista claro e objectivo, e, na maior parte das vezes, o significado mais abrangente é ignorado. Para mim, não chega a ser uma crença, mas um fenómeno irrefutável.
   Abrimos um livro de Química e é provável que, a dada altura, nos deparemos com este ensinamento. Existe um rol de gestos, palavras e expressões que fazem parte do nosso quotidiano e cujo verdadeiro valor descartamos facilmente. Assumindo que esta afirmação é olhada desse modo comodista, podemos descobrir nela um significado bem mais transcendente. Definimos a Natureza como tudo o que nos rodeia, seja físico, mental ou espiritual, e não só como a matéria envolvente, e conseguiremos destrancar numerosas portas, conforme a capacidade e experiência de cada um:
   - Se na própria Natureza, o que teria, supostamente, atingido o fim de vida útil modifica-se, sendo utilizado de outra forma, porque não exploraria o Homem uma maneira de o fazer também? E não é coerente que um objecto qualquer também necessite de ter essa abilidade mutante para ser ecológico? Portanto, admiro que alguém tenha sido capaz de atingir esta conclusão e de elaborar um plano para a pôr em acção. Lamento não ter sido mais cedo, porém desconheço se eu própria o acharia óbvio, caso não vivesse numa época de consciencialização ambiental.
   - Traduzindo esta filosofia para um nível mais pessoal, acredito que o ser humano, de um modo similar, se mantém, sob outra existência, após o fim tomado por certo. Transformamo-nos como tudo o resto, pois somos como tudo o resto. E se cremos que isto ocorre fisicamente, penso que não devemos rejeitar a possibilidade de aquilo que nos caracteriza realmente se manter, só porque não possuimos provas palpáveis ou visíveis. A nossa passagem pela Terra, pelos seres que nos acompanharam não se desvanece simplesmente, de mão dada com o nosso corpo. Somos relembrados além do fim físico e sermos esquecidos será, talvez, o maior castigo que podemos padecer. Saber que não fizemos diferença.
   Como já referi, com certeza, outros decifrarão o princípio de Lavoisier e descobrirão algo diferente. O necessário é abrir os olhos aquilo que deixamos escapar todos os dias e encontraremos muitas mais formas de sermos felizes.

04/11/2009

"Todos nós guardamos na lembrança episódios da nossa vida que nos fizeram felizes."

Mais uma vez, apresento a composição do meu mais recente teste de português, sendo o tema o referido acima. Deixo agora que as palavras falem por si :)

   Enroscada nos lençóis quentes e pesados, próprios do Inverno que já se insinuava nas noites geladas, pedia a minha amável mãe que me contasse uma história. "Ora, certa vez..." começava ela.
   Com os seues calorosos braços a envolverem-me, criava um fantástico conto improvisado, demonstrando a criatividade que sempre invejei. O seu entusiástico tom de voz prendia a minha atenção até ao momento em que, exaustos, os meus pequenos olhos cediam e se cerravam. E, com um sorriso inocente, adormecia.
   Fascinada com o hábito nocturno que, sorrateiramente, alimentava a minha imaginação, certa noite, pedi à minha contadora de histórias que invertessemos os papéis. Então, confiante da minha própria capacidade de criação, dei início a um incrível conto de princesas e bruxas, de guerreiros e dragões, surpreendida pela sinceridade que imprimia em cada palavra e inventando novos factores que cativassem a minha ouvinte.
   Lutava por me manter desperta, contudo, no meio de tanta emoção, as pesadas pálpebras levavam a melhor. E, com um sorriso inocente, adormecia.

19/10/09

19/09/2009

Inspirado na obra A Saga, de Sophia de Mello Breyner

Escrevi esta composição também para a aula de Português. A tarefa era elaborar uma das cartas que Hans, a personagem principal, mandou aos seus pais. Não creio que possa compreendida na sua íntegra, se o leitor não conhecer a história, portanto recomendo o livro Histórias da Terra e do Mar, para quem puder e o quiser ler.

Índico, 19 de Setembro de 1950

    Querida família,
    Perdoem-me por não ter escrito ultimamente. Os trabalhos têm sido múltiplos e duros e o tempo perde-se no ar, como um leve sussurro. Tenho-me esforçado por concretizar o meu sonho: regressar a casa como capitão de um navio. De facto, capitão já sou. Hoyle, o inglês que me acolheu, proporcionou-me uma óptima educação, da qual até o Pai se orgulharia, e fez-me capitão de navio e homem de negócios.Porém, é a segunda parte deste meu desejo que falho em realizar; a parte mais importante.
    Hoje, navego no Índico. Descobri os búzios mais belos, rosados e semi-translúcidos. Neles, escuta-se o pacífico silêncio do mar, aquele que se ouve no promontório. Embora esse silêncio traga até mim a alegria de casa, a alegria de ser amado, traz, também, a dor de lá não poder regressar, a saudade que me enche o coração dum silêncio que não é feliz, mas sim sofredor e angustiado, de tão frio e desprovido de amor. A minha única vitória seria poder regressar a casa. Daria tudo para retornar a Vig, retomar a minha antiga vida, outrora repleta de amor, esperança, sonhos...
    Peço-te, meu Pai, acolhe-me, mais uma vez, em tua casa, em nossa casa, e perdoa-me pelos meus pecados, pois não sou mais do que uma criança errante.

Cumprimentos saudosos,
Hans

Declaração Universal dos Direitos Humanos - a Liberdade

Escrevi esta composição num teste de Português. O tema era o Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direito...". Mais tarde, durante a correcção, apercebi-me que o que escrevi não era bem o que era pedido, contudo, continuo a achar que foi das vezes em que me senti mais inspirada durante um teste :)

    Quando vimos ao mundo, todos somos livres, dignos e iguais, em termos de direitos. Se isto é verdade, como será que acabamos tão diferentes, indignos e impuros?
    No início da vida, temos todos os mesmos direitos. Nascemos com a dignidade intocada e com as almas livres. Contudo, a partir da idade em que começamos a tomar as nossas próprias decisões, temos a oportunidade de escolher os nossos caminhos e, muitas vezes, tomamos o errado. Talvez, porque aparentemente, é o mais fácil. Talvez porque é o mais rápido. Todavia, a verdade é que, com cada caminho errado, somos um pouco menos dignos e a nossa alma, um pouco menos livre. Caímos na armadilha da ambição, da ganância, e, quando reparamos, a nossa vida já não é nossa. Desistimos de muito pelos nossos sonhos e, o que realmente importa, fica perdido pelo caminho. É isto que temos de evitar. De acordar um dia e não sermos nós. E é por isso que tomar o caminho correcto é importante.
    É verdade que nascemos livres, e é livres que temos de nos manter. Os caminhos certos não significam apenas sermos uma boa pessoa; significam sermos uma pessoa - nós mesmos.

06/09/2009

Sorriso - acto de benevolência

      Os teus perfeitos lábios encarnados rasgaram-se noutro sorriso sincero. Era como se o Mar Vermelho se dividisse, guiando-me pelo único caminho possível.
      Poria a mão no fogo pela veracidade desse sorriso. Sei que era sentido, porque também os teus olhos jorravam essa luz quente, que a minha própria chama acendia. E, assim, crescia em minha alma um sentimento forte e incontrolável. Uma vontade veemente de saltar, de correr, de gritar, de lutar... Uma vontade inabalável de viver!
      Quantos sorrisos já vi! Pensava mesmo que já os vira a todos: tortos, desdentados, amarelos... Apagados. Bamboleando-se, rua acima, rua abaixo, como se, algum dia, se pudessem destacar do meio hostil e austero em que, orgulhosos, se emproam. Até que, finalmente, encontrei uma nova estrela no firmamento. E tive medo de perdê-la. Todavia, sabia que, de tão enraizada em mim, jamais deixaria de presenciar o crepúsculo em que, confiante, se acendia lentamente, segura da ideia de transição, em oposição ao fim. Porém, também eu estava certa de algo: à menor sugestão do teu brilho, que reconheceria a uma eternidade de distância, nasceria em meu ser a força precisa para enfrentar quantas imitações fossem necessárias, apenas para poder mirar mais uma vez, nem que fosse a última, o teu esplendor singelo, que, sereno, borbulhava alegremente, fundindo-se, nesse momento, com a minha essência,
     Os teus perfeitos lábios encarnados rasgaram-se noutro sorriso sincero. Era como se o Mar Vermelho se dividisse, guiando-me pelo único caminho possível - a infância.