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31/12/2014

Novo ano, novo eu

Não, o ano novo não vai automaticamente fazer com que uma pessoa mude por completo. Mas não deixa de ser uma oportunidade nova para a própria pessoa se mudar aos poucos. O peso deste marco ajuda-a a retirar dos ombros o peso de águas passadas e ganhar coragem para ver no futuro não uma repetição do que já foi, mas antes novas possibilidades para agir e ser de outra forma.

Por um lado, o lema “ano novo, vida nova” tem que ser olhado não com pensamento mágico, mas com a responsabilidade necessária a quem está comprometido com a mudança. Por outro lado, só pode ser visto à luz do perdão: podemos falhar mesmo quando estamos a trabalhar por sermos melhores – é, aliás, inevitável que falhemos. O que importa é que não desistamos, ainda que, apesar de, não obstante e mesmo assim. Essa é a primeira e principal mudança a fazer.


Que nos saibamos dar, a nós mesmos, segundas, terceiras, centésimas e infinitas oportunidades. E que saibamos dá-las também aos outros – que tenhamos por objetivo, para este novo ano e para os próximos, colocar o ceticismo de lado quando estivermos a lidar com a humanidade dos outros. Que saibamos encorajar, exigir, responsabilizar até – mas não desalentar. Nunca desalentar.

29/03/2014

Ninguém está bem com o que tem

“Ninguém está bem com o que tem, é sempre o que vem que nos irá valer” – Deolinda

Acho que as pessoas se habituaram a adiar a felicidade. Nunca estamos bem hoje, esperamos sempre o que imaginamos que virá amanhã. Porque então, oh, então sim! Teremos mais idade, teremos mais dinheiro, teremos mais amigos, teremos um emprego, teremos um carro, teremos uma família, teremos mais disto, menos daquilo, o certo de tudo – do errado, nada.
Por mais que acredite que há situações limite em que é impossível sentir-se feliz de forma estável, o facto é que esse tipo de situações não é a regra geral que comanda a vida do cidadão comum. O que comanda a vida do cidadão comum é o próprio cidadão comum. Sim, claro que o contexto importa, mas se não podemos alterar esse mesmo contexto, de que serve vivermos infelizes até que ele mude? Temos que nos adaptar e, sobretudo, aceitar aquilo que não podemos mudar. É algo paradoxal, mas só assim teremos força para realmente promover mudanças que estejam ao nosso alcance e que, tantas vezes, desprezamos. De facto, levanta-se a questão: como pode alguém ser feliz se despreza a sua própria força renovadora? A sua própria influência? O seu poder na própria vida?
Outro problema é que, se adiamos a felicidade para o momento ideal, vamos encontrar apenas desilusão. O momento ideal não existe – e esta é a principal verdade que distingue a fantasia da realidade. Sim, na nossa ideia do futuro, tudo é perfeito e está em ordem. Mas ele nunca acontece assim – que chatice! A vida, mais que muitas vezes, altera os nossos planos e dá-nos cartas diferentes das que esperavamos. Se estivermos presos ao retrato que fizemos do futuro na nossa imaginação – e à felicidade que daí esperavamos retirar – não teremos a flexibilidade de repensar a nossa jogada com as cartas que, de facto, nos foram dadas. E se perdermos a nossa capacidade de nos adaptarmos ao contexto, perdemos uma das principais vantagens que nos distingue enquanto seres humanos.

O que temos que encarar  é que, se não somos felizes agora, não será aquele detalhe que imaginamos vir a ter no futuro que fará a diferença. Temos que ser nós próprios a fazer a diferença. A alterar a nossa visão do mundo, a nossa forma de nos relacionarmos com ele. Porque a única coisa sobre a qual realmente temos a influência suficiente para desenvolver grandes mudanças é em nós próprios – mas, acreditem em mim, isso chega.