09/11/2010

Destino

Se algures no infinito,
encontrarem uma folha branca
com o meu nome escrito,
e um traçado de ruas,
encantos e desencontros;

E, se ao a contemplar,
encontrarem todos os pontos
em que chorei, sorri e ri;
Mesmo que vos pareça
que foi assim que vivi,

E que vos venha à mente
a palavra "destino",
isolada, realizada,
pintada pelo pincel
mais divino,

Recordem que muito
mais sou do que
um mero mapa.

E mesmo que toda a vida
esteja já delineada;
Mesmo que a escolha
pareça já estar tomada,
Sou eu quem a sente concretizar-se.

Porque muito mais é a vida
do que ponto de chegada
ou de partida.

É sentir o vento na cara
e, por dentro, uma forte batida.

24/09/2010

Chamem-lhe saudades

Nó na garganta.
Nó e vazio.
Um tremer da mão.
No estômago, frio.
Um ir e vir
De vontades.

O coração envolto
Numa corda.
Numa corda apertada.
Nó na garganta,
Frio no estômago,
Corda lentamente puxada.

Vontade de vomitar.
Vontade de correr,
De sair.
Vontade de ficar.
Vontade de fugir.
Vontade de abraçar.

Sei perfeitamente
O que lhe chamar,
A este ir e vir
De vontades.
Como se importasse,
Como se algo mudasse,

Chamar-lhe saudades.

Água benta

  Água benta: o que é? Para alguns, talvez represente um ritual; uma tradição; um acto executado, sim, mas não inteiramente compreendido. Por outro lado, também há aqueles que a vêem quase como um arcaísmo, algo em que não se pensa, seja por discordância, seja por mero desinteresse.
  Ainda existe, contudo, a versão mais "tradicional", mantida e defendida por aqueles para quem Deus e a Natureza se entrelaçam num: água benta é, afinal, purificação. Talvez algo mais, mas nunca nada menos do que virtude, pureza, integridade.
  Meditando sobre estas palavras, que, ligeiras, carregam muito mais do que consoantes, vogais e sílabas, encontro-as levemente bordadas na alma desse líquido transparente - benzido, ou não - que nos escorre pelos dedos, sem, no entanto, o vermos, prova viva duma fragilidade aparente, duma força esmagadora que, por vezes, se dissimula num silêncio cómodo.
  Água benta, água bendita, água abençoada - adjectivos que emprego não como distinção entre várias qualidades de água, mas sim como uma verdade imutável, que exerce toda a sua veracidade sobre toda e qualquer gota, solitária na sua existência indivisível, forte na sua pequena vulnerabilidade irreal.
  Afinal, seja a água que limpa a nódoa, que arrefece o corpo quente, ou que refresca a boca seca, toda ela é benta. Qual de nós não chega a casa, depois de uma boa corrida, toma imediatamente um copo de água e se sente verdadeiramente grato por esta existir? Qual de nós, sentindo-se nervoso ou preocupado, não molha os pés na água salgada e se sente embalado pelo ruge-ruge das ondas? Qual de nós consegue conceber um futuro sem esta fonte de tanta vida?
  E, mesmo assim, quantos de nós a desperdiçam superficialmente, todos os dias?